![]() |
Revista Latina de Comunicación Social 16 abril de 1999 |
| Edita: LAboratorio de Tecnologías de la Información y Nuevos Análisis de Comunicación Social |
| [Texto en lengua portuguesa] Psicomunicación y trama de subjetividades.Interfaces teóricas en la constitución de una investigación transdisciplinar (8.839 palabras - 26 páginas) Lic. Maria Luiza Cardinale Baptista © Professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), Brasil Ver Suely ROLNIK, Cartografia Sentimental. El presente estudio aborda la psicomunicación, como aproximación de las áreas comunicación-psicología y las posibilidades de interfaces teóricas. Parte del concepto de comunicación como proceso complejo de interacción de subjetividades, a través de flujos de informaciones concretos y abstractos, compartidos, productores de transformación de los elementos envueltos. Considerase, de este modo, la necesidad de interfaces teóricas para el abordaje. Tratase de una especie de "cartografía" en el sentido que Rolnik usa el término - o sea, de un esfuerzo de mapear el paisaje, acompañando el movimiento constante de transformación. Algo como un conjunto de mapas múltiples que se superponen y van conformando una maraña de posibilidades de caminos. No se trata de una propuesta de un camino teórico, sino de encarar el desafío de producir movimiento/investigación, considerando las imbricaciones, las confluencias, zonas limítrofes de convivencia. Perspectiva de transito, trans-disciplinar, trans-teórica. Por fin, la cartografía relacionase a los presupuestos teóricos de una investigación, en desenvolvimiento, respaldandose, entonces, en una práctica vivida de búsqueda del conocimiento según estas interfaces. MAPEAMENTO TEÓRICO Para construir o problema, trabalho com feixes informacionais teóricos, que constituem o que chamo de costura teórica. Este tecido/trama tem sustentação em pressupostos gerais, espécie de cenário cósmico, e em universos de referência mais próximos, territórios vizinhos, ligados mais diretamente ao meu objeto. Das perspectivas gerais que compõem este fundo teórico, em conformação na minha pesquisa, quero ressaltar: VISÃO SISTÊMICA - FRITJOF CAPRA - ROBERTO CREMA PÓS-MODERNIDADE --- MICHEL MAFFESOLI BOAVENTURA SOUSA SANTOS TEORIA DA COMPLEXIDADE -- EDGAR MORIN CIÊNCIA E EXPERIÊNCIA - MARTIN BUBER FRANCISCO VARELA CRISE DOS PARADIGMAS - FRITJOF CAPRA CREMILDA MEDINA EDVALDO PEREIRA LIMA ROBERTO CREMA E também em universos de referência mais próximos, territórios vizinhos: SUBJETIVIDADE -- FÉLIX GUATTARI SUELY ROLNIK PSICANÁLISE - SIGMUND FREUD (e autores relacionados) JACQUES LACAN (e autores relacionados) MARIA RITA KEHL JOVEM ADULTO/ADOLESCENTE - MARIA FOLBERG - ROSA MARIA BUENO FISCHER TECNOLOGIA -- DERRICK DE KERCKHOVE NÚCLEO DE TECNOLOGIA (USP) PIERRE LEVY REGIS DEBRAY SEMIÓTICA E LINGUAGEM - UMBERTO ECO Linguagem - Partir do texto do Vigotsky - situar um pouco as pesquisas sobre desenvolvimento da linguagem, com Piaget COMUNICAÇÃO - JESUS MARTIN BARBERO MAURO WILTON DE SOUSA FAUSTO NETO GUILLERMO OROZCO GOMEZ ESCRITA - ERIC HAVELOCK MARIA EMILIA FERREIRO. PIERRE LÉVY Até o momento, apresentei o entrelaçamento das trilhas, numa espécie de "cartografia" da tese no sentido que Rolnik (1) usa o termo, ou seja, num esforço de mapear a paisagem, acompanhando o movimento constante de transformação. Acontece que esta trama das trilhas relaciona-se com trilhas ainda mais profundas e complexas - as teorias que me orientam. Algo como um feixe de mapas múltiplos que se superpõem e vão conformando uma teia de possibilidades de caminhos. Não há, segundo minha perspectiva de pesquisadora, como adotar apenas um desses caminhos. Há, no entanto, o desafio de produzir movimento/investigação, considerando as imbricações, as confluências, zonas limítrofes de convivência. Perspectiva de trânsito, trans-disciplinar, trans-teórica. Estou chamando de trilhas os aspectos do meu trabalho relacionados a dimensões teóricas, como uma metáfora para pensar caminhos, percursos que se interligam, numa seqüência de pistas, na busca de informações sobre o problema. Depois de apresentar o entrelaçamento das trilhas, ou, dizendo de outra maneira, a trama das trilhas, convido o leitor para uma viagem guiada a cada uma delas. Claro que elas estão interligadas de forma intensa e tensa, e que busco também apresentar este tramar-se. Lembro que meu objeto de estudo é objeto-trama. Tenho trabalhado, há anos, com a expressão objeto-paixão-pesquisa (2) e o que percebo é que entre as minhas paixões em pesquisa está sempre o que se relaciona à idéia de trama, rede, do que enreda, teia de uma confluência de aspectos, de uma lógica da multiplicidade.Vamos, então, para a noção de trama, partindo do sentido literal... "Trama. (Do lat. trama) S.f.1. O conjunto dos fios passados no sentido transversal do tear, entre os fios da urdidura. 2. tela. (...) 5. Fig. enredo, intriga, teia." (3) Na verdade, este sentido literal apenas simboliza sinteticamente um conjunto de pressupostos que constituem a base para a minha pesquisa. Pressupostos que orientam cada momento, cada escolha, cada decisão tomada. Orientam a minha compreensão sobre o que é produzir conhecimento, sobre o que é Ciência. Ciência e as mutações contemporâneas Como ser humano do meu tempo (4), estou atenta às transformações da paisagem teórica e, portanto, de discussões sobre crise dos paradigmas (5), mudança do paradigma, surgimento de um novo paradigma (6). Um pano de fundo a partir do qual cientistas e visões de mundo sobre a Ciência são convidados o tempo todo a repensar e serem repensados. O real contemporâneo pede um cientista novo para compreendê-lo. Um cientista mais sensível. Alguém que dê conta de alguns aspectos ainda não considerados o suficiente. A compreensão desta lógica é que me remete a, antes de tudo, situar o leitor em relação aos meus pressupostos científicos, quer dizer, explicitar a partir de que lugar, a partir de que visão do conhecimento, da Ciência, estou escrevendo. Esta atitude me parece fundamental, na medida em que a transformação do conceito de Ciência está relacionada com o cerne da tese. A relação do ser humano com os processos de escrita está intrinsecamente ligada ao processo de produção do conhecimento e da comunicação, bem como das relações entre os sujeitos e de uma espécie de trama de saber/poder/comunicar, que permeia cada uma destas áreas. A contemporaneidade opõe-se à lógica da Modernidade. Os traços contemporâneos são desafiadores, até mesmo porque nos acostumamos às certezas, à ciência objetiva e explicativa de tudo, o que supostamente seria possível desde que os métodos fossem adequados. Acostumamo-nos à realidade produzida pela Revolução Científica, que definiu - ao menos em tese -, de forma cada vez mais nítida, os campos, as áreas, os territórios do saber/poder/comunicar. Vejamos...O que se convencionou chamar de Revolução Científica foi um processo de transformações do pensamento, do qual ainda temos marcas. Tal foi a fissura/ruptura provocada. Pensadores como Renè Descartes, Francis Bacon e Isaac Newton re-situaram o conhecimento humano, estabelecendo as bases para o processo que desembocaria, bem mais tarde, nos pilares de sustentação da Modernidade. A perspectiva medieval mudou radicalmente nos séculos XVI e XVII. A noção de um universo orgânico, vivo e espiritual foi substituída pela noção do mundo como se ele fosse uma máquina e a máquina do mundo converteu-se na metáfora dominante da era moderna. Esse desenvolvimento foi ocasionado por mudanças revolucionárias na física e na astronomia, culminando nas realizações de Copérnico, Galileu e Newton.(...) Reconhecendo o papel crucial da ciência na concretização dessas importantes mudanças, os historiadores chamaram os séculos XVI e XVII de a Idade da Revolução Científica (7). A Ciência na Modernidade, a partir dos pressupostos da Revolução Científica, foi construída através da fragmentação dos fenômenos em suas unidades básicas, para tentar compreender-lhes o funcionamento mecânico, considerando suas manifestações concretas. Uma ciência atrelada ao Método, em busca de uma Verdade, a ser desvendada por pesquisadores objetivos. Diferente disso, meus pressupostos científicos aliam-se a visões que consideram prioritários outros critérios. Considero que estamos sendo convidados ao contato com o caótico (8). O contemporâneo é profundamente caótico. Lidar com o contemporâneo é deparar-se com um tempo de crises, esse tempo em que vivemos. Um tempo de cegueira, como nos ensina Saramago. Uma cegueira branca, talvez decorrente das luzes da racionalidade moderna. No romance Ensaio sobre a Cegueira temos a ficção de um mundo que retorna à horda primitiva, só que em escala ampliada. "...encontramo-nos no caos, o caos autêntico deve ser isto. Haverá um governo, disse o primeiro cego, Não creio, mas, no caso de o haver, será um governo de cegos a quererem governar cegos, isto é, o nada a pretender organizar o nada. Então não há futuro, disse o velho da venda preta, Não sei se haverá futuro, do que agora se trata é de saber como poderemos viver neste presente, Sem futuro, o presente não serve para nada, é como se não existisse, Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade, o resultado está à vista, qual de nós se considerará ainda tão humano quanto antes cria..." (...)"Regressamos à horda primitiva, disse o velho da venda preta, com a diferença de que não somos uns quantos milhares de homens e mulheres numa natureza imensa, intacta, mas milhares de milhões num mundo descarnado e exaurido" (9). Tenho claro que desenvolver uma pesquisa sobre a comunicação e subjetividade contemporâneas e embrenhar-se nas diversas visões do mundo que norteiam os estudos sobre essas trilhas é bastante angustiante e desafiador. Na verdade, isso não pode ser feito sem considerar a sucessão de crises, rupturas, novas visões, reelaborações que marcam não só a comunicação e a subjetividade, mas sugerem uma perspectiva multidimensional e transdisciplinar. Perspectiva orientada por pressupostos que interligam dimensões sócio-econômico-políticas, às dimensões científico-culturais-cotidianas, que extrapolam níveis concretos dos fenômenos, para captar também dimensões sutis. É a partir da compreensão dos limites dos pressupostos que orientaram a produção do conhecimento e da comunicação na Modernidade que busco novas bases, novos pressupostos - não necessariamente um novo paradigma. Encontro algumas visões teóricas, que me auxiliam, como a visão sistêmica da teia da vida (10), e seus múltiplos entrelaçamentos, a lógica do pensamento complexo (11), a concepção de caos e do que se pode chamar uma ciência pós-moderna (12). Visão Sistêmica Ao longo deste século, a visão sistêmica foi se conformando, tendo os critérios delineados a partir de um aprofundamento da compreensão de teóricos como os biólogos organísmicos, psicólogos da Gestalt e ecologistas. Os avanços proporcionados pela Física Quântica também foram decisivos para a mudança de pensamento que começou a questionar o império da visão mecanicista-reducionista-cartesiana, que predominou desde a Revolução Científica. Percebo, cada vez mais, que os pressupostos que tento delinear estão intrinsecamente relacionados com os denominados critérios da teoria sistêmica (13). São eles: 1. mudança da visão das partes para o todo - e compreensão que os sistemas são totalidades integradas, com propriedades não reduzíveis às partes; 2. capacidade de deslocamento contínuo nos níveis sistêmicos - uma espécie de ruptura com as hierarquizações rígidas e com a fixidez dos pré-conceitos - ainda que considerando as peculiaridades das propriedades sistêmicas de um determinado nível, ou seja, das chamadas "propriedades emergentes" deste nível; 3. compreensão de que não há partes, mas padrões numa teia inseparável de relações. Portanto, as relações é que são fundamentais (14). Neste critério, vale destacar, como decorrência, a importância de pensar em termos de redes; 4. ruptura com a concepção tradicional de objetividade científica. "Quando percebemos a realidade como uma rede de relações, nossas descrições também formam uma rede interconectada de concepções e de modelos" (15).Trata-se da mudança da ciência objetiva para a epistêmica, onde a epistemologia integra a teoria científica; 4. compreensão do limite de todas as concepções e de todas as teorias científicas. Estas passam a ser vistas como limitadas e aproximadas. "A ciência nunca pode fornecer uma compreensão completa e definitiva." (16); 5. Lógica processual - a estrutura do sistema é vista como manifestação de processos subjacentes (17); 5 . caráter efêmero/ mutação - compreensão dos sistemas abertos, que precisam de um contínuo fluxo de matéria e de energia, extraídas do seu ambiente. ". . . os sistemas abertos se mantêm afastados do equilíbrio, nesse estado estacionário caracterizado por fluxo e mudança contínuos." (18); 6. consideração de dimensão de entropia(desordem) nos sistemas - a ciência que se desorienta, tentando se re-orientar; 7. a ciência se sensibiliza, na medida em que o sujeito cientista tem que captar o real também a partir de dimensões sutis, sensíveis, abstratas, dos fluxos que o compõem, que compõem os universos da significação. Entrar com alguma coisa da lógica do pensamento complexo. Pós-Modernidade Trabalhar teoricamente com uma visão Pós-Moderna exige, antes de mais nada, a explicitação de como os pressupostos pós-modernos estão sendo utilizados. O movimento teórico que se produz em nível mundial sob a rubrica Pós-Moderno" tem muitas faces, é multiplurifacetado, como não poderia deixar de ser, já que esta é uma de suas características intrínsecas. O que me interessa na visão Pós-Moderna é menos o nome e mais a explicitação de que trabalho com pressupostos evidenciados depois dos da Modernidade. Trata-se de toda uma concepção de ciência, envolvendo desde pressupostos gerais epistemológicos, metodológicos, teóricos, técnicos até as especificidades do objeto construído. Na apresentação do livro de Maffesoli, O Tempo das Tribos, Luiz Felipe Baêta Neves resume o que ele chamou de uma série de revisões conceituais: "...passa pelo próprio conceito de História; por uma visão holística não totalitária; pelo re-exame da importância do político e do econômico; por uma re-consideração das diferenças entre os conceitos de "cultura" e "civilização"; por uma valorização do fluido, do simples, do polimorfo, do cambiante, do parcial; por uma fascinante proposição relativa ao papel da afetividade, da proximidade, do calor humano na constituição social..."(19). Acredito que estas considerações sintetizam a transformação do pensamento teórico na contemporaneidade, rumo ao que se pode chamar de Pós-Moderno, ou seja, depois da Modernidade. Como afirma o próprio Maffesoli, trata-se de um deslocamento de "...uma ordem social essencialmente mecanista para uma estrutura complexa a dominante orgânica" (20). Por outro lado, convém salientar que é desnecessário e, mais, incoerente, abrir mão de todos os pressupostos da Modernidade. Eu disse antes que o Pós-moderno tem muitas faces. Vale destacar, então, que o prisma a partir do qual trabalho é o da "costura de saberes", do não pré-conceito, da consideração da multiplicidade dos elementos visíveis e invisíveis na constituição dos universos de significação - estes, por sua vez, sistemas complexos, tendendo à incerteza, porque infinitos. Maffesoli alerta que "O fato de o dinamismo social não estar mais trilhando os caminhos da Modernidade não significa que esse dinamismo não exista mais dentro dela" (21). E, neste sentido, coloca em questão o problema da sinergia: "...propor uma sociologia vadia que não seja ao mesmo tempo uma sociologia sem objeto" (22). Considero também uma bela síntese sobre o desafio pós-moderno as considerações apresentadas por Michele e Armand Mattelart, apesar de discordar da identificação das concepções pós-modernas como "o desenho de um novo paradigma (sic)". Sobre este "paradigma", afirmam: ...o do reconhecimento do sujeito e da pertinência de uma teoria que parte das percepções deste último, de sua subjetividade, que acolhe as vacilações da significação; que entrevê a comunicação como um processo dialógico onde a verdade, que não será nunca mais única, nasce da intersubjetividade. Contra o império da estrutura e a idéia de permanência, da reprodução estática a ela associada, lança-se o status do insignificante, do anônimo, do efêmero, do incidente, do fato comum, do instantâneo. Contra o herói da teoria, contra o herói da produção, contra o herói da história, lança-se o status do homem sem qualidade. (23). Comunicação. Rumo aos desafios contemporâneos Os estudos de Comunicação até os anos 80 no Brasil e América Latina (24) foram marcados pelas influências dos pressupostos da Revolução Científica. Durante a maior parte deste século, a pesquisa em Comunicação baseou-se em um modelo mecânico-reducionista-cartesiano que, resumidamente, considera comunicação como E (emissor que emite) M (uma mensagem) C (utilizando um determinado canal) C ( a partir de determinado código) R (para um receptor que recebe ou, no máximo, pode responder, reagir, produzindo feed-back) (25). O modelo de Harold Laswell (26) adequa-se plenamente aos pressupostos apontados por aqueles pensadores que revolucionaram a Ciência no final do século XVI e início do século XVII. E este modelo comunicacional, por sua vez, perpassou as vertentes: Funcionalismo, Teoria da Dependência e Escola de Frankfurt (27). Partindo da lógica reducionista, pode-se dizer que a compreensão da Comunicação foi reduzida a um conjunto de mecanismos, engendrados a partir de elementos (unidades mínimas) fragmentados. Até então, tratava-se da mecânica comunicacional. Entendo modelo mecânico como sendo aquele em que não há nem verdadeiros atores nem verdadeiros intercâmbios. É o modelo em que comunicar é fazer chegar uma informação, um significado já pronto, já construído, de um pólo a outro. Nele, a recepção é um ponto de chegada daquilo que já está concluído (28). Embora isto acontecesse também no período caracterizado pela influência das teorias da Escola de Frankfurt, o que se percebe é que esta fase representou o auge da discussão crítica ao "poder de manipulação das massas" pelo emissor. Quer dizer, já que se entendia a comunicação como mecânica de transmissão - A-transmite » para B-recebe -, apenas o emissor era visto como sujeito. O receptor ficava relegado à categoria de objeto, ser que apenas recebia, supostamente numa reação passiva. Daí que, evidentemente, sob a luz desses pressupostos, não se podia pensar em interação de sujeitos emissor e receptor. Primeiro, porque o receptor era visto como objeto; e, segundo, porque o emissor é quem detinha - supostamente - o poder de comunicação (aqui entendida como transmissão(29). Acontece que os tempos são outros. As teorias que repercutem e são produzidas no Brasil pós-1980 dão conta de abordagens que apontam para a complexidade da trama comunicacional. Começam a ganhar força visões que, se não rompem totalmente com os grandes paradigmas - e isso realmente não aconteceu -, ao contrário, vão mais fundo, colocando em xeque a própria noção de paradigma (30). A partir daí, nada será como antes. Parte-se do "conforto" e "aconchego" dos braços dos nossos "pais teóricos" - referenciais paradigmáticos - para ingressar num mundo de incertezas, ainda que um mundo muito mais verdadeiro. O esquema de LASWELL, está claro, não dá mais conta de explicar a comunicação, que passa a ser entendida como processo complexo. Chegamos, então, a um lugar nebuloso. Não há mais as claras definições de papéis e de funções (31), nem mesmo a possibilidade de classificação e julgamento dos elementos envolvidos no processo (32). Não se tem mais dois pólos. Mas, para a comunicação acontecer, há um misturar-se de campos de força. Fica mais fácil compreender o que são estes campos de força, com as teorias recentes em Psicologia - de que tratarei posteriormente. Teoricamente, o movimento produzido pela incorporação de teorias como a de Antonio Gramsci (33), a dos chamados Pós-68 (34) e a dos Pós-Modernos, reconfigura o cenário de análises. Passando para um plano mais aberto, observamos a realidade comunicacional - ou não - a partir de uma perspectiva mais complexa. A comunicação não é dicotômica, não é mecânica, não é a soma das partes envolvidas. Não é só o concreto. A comunicação é um sistema todo, processual, mutante. A recepção, por sua vez, não é mais uma parte, mas integrante de um sistema, complexo, trama. Trata-se do momento em que os sujeitos se encontram, se realmente houver comunicação. E encontram-se, não só através de códigos concretos, previsíveis e passíveis de separação em unidades básicas. Encontram-se como uma espécie de fusão de energias, que contempla também o mundo do visível, mas não só. Principalmente, que contempla este mundo, de uma maneira toda especial, sob a não-forma da visualização. Mediações A lógica da complexidade aplicada à Comunicação teve como vertente impulsionadora da sua compreensão a Teoria das Mediações. A grande contribuição desta teoria é o rompimento com a dicotomia do modelo mecânico, apontando para o conflito na produção de sentidos, relacionado a batalhas travadas em diferentes dimensões, inclusive, na da produção simbólica. Contribui, então, porque permite repensar o próprio conceito de Comunicação sob a ótica da cultura, bem como o complexo sistema comunicacional da sociedade contemporânea. " as relações de poder tal e como se configuram em cada formação social não são mera expressão de atributos, mas produto de conflitos concretos de batalhas no campo econômico e no terreno do simbólico. Porque é neste terreno onde se articulam as interpelações desde as que se constituem os sujeitos, as identidades coletivas." (36). A grande contribuição da Teoria das Mediações, parece-me, é justamente uma abertura para a compreensão do que existe entre os envolvidos na comunicação, abrindo mão de preconceitos e estereótipos da pesquisa da área. O estudo das mediações abandona abordagens que reduziam a comunicação a um conjunto de mecanismos concretos, mecânicos, isoláveis como pedaços de um objeto. "Dos meios às mediações" também ajuda a compreender a comunicação para além dos meios, alcançando a complexidade dos campos que se interpenetram no universo das mediações. Esta mudança de pressupostos fica muito clara quando Barbero propõe que, diante das incertezas, devemos refazer os mapas de conceitos básicos e que isto não é possível sem mudar o lugar desde o qual se formulam as perguntas. A Teoria das Mediações já vislumbra a complexidade teórica com que nos deparamos. As tentações ao apocalipse e à volta do catecismo não faltam, mas a mais secreta tendência parece ir em outra direção: a de avançar ( ) sem mapa ou com somente um mapa nocturno. Um mapa para indagar não outras coisas, que não a dominação, a produção e o trabalho, mas desde outro lado: o das brechas, o consumo e o prazer. Um mapa, não para fuga, mas para o reconhecimento da situação desde as mediações e os sujeitos. (37). Partindo de três lugares de mediação a cotidianidade familiar, a temporalidade social e a competência cultural (38)-, esta Teoria apontou para a trama decorrente das anacronias e das diferentes relações com o tempo, multiplicidade de temporalidades. "Parece-me importante na pós-modernidade essa nova sensibilidade, envolvendo a multiplicidade, e a heterogeneidade de temporalidades que combinem." (39). Ainda há que se resgatar desta teoria a mediação das novas fragmentações sociais e culturais, como é o caso da resultante do acesso às tecnologias da comunicação: " a nova tecnologia já não é mais uma acumulação de aparatos, é um novo organizador perceptivo, um reorganizador da experiência social, no sentido forte da experiência, no sentido da sensibilidade " (40). Midiologia Na contemporaneidade, uma teoria que pode auxiliar a compreender o que eu chamo de trama comunicacional é a midiologia. Esta palavra representa o estudo das midiasferas, que são três. À logosfera, corresponderia a era dos ídolos, no sentido lato (do grego eídolon, imagem). Este período estende-se da invenção da escrita à da imprensa. À grafosfera, a era da arte. Sua época estende-se da imprensa à TV a cores (como veremos, muito mais pertinente do que a foto e o cinema) . À videosfera, a era do visual (conforme o termo proposto por Serge Daney). É precisamente a época em que vivemos (41). A explicação de Debray sobre estas midiasferas é preciosa. Observe, caro leitor, que ele não trabalha com a idéia de rupturas bruscas, mas com o que eu tenho chamado de costura. ...nenhuma midiasfera exclui a outra e como elas se sobrepõem e implicam uma na outra. São dominâncias sucessivas, por revezamento de hegemonias; e mais do que cortes, seria preciso delinear fronteiras à moda antiga... Zonas de tampão, franjas de contato, amplos degraus cronológicos abarcando, ontem séculos, hoje decênios (42). Trabalhar a idéia apresentada por Regis Debray de era do visual não é tarefa fácil. Isto porque a questão extrapola justamente as dimensões do materializável, atingindo o mundo do inefável. Trato de um mundo de fluxos informacionais, intensos, que compõem a comunicação, num movimento incessante, estonteante. Formam o que eu chamo de mundo gasoso de fluxos ou de comunicação abstrata. "O desaparecimento dos Invisíveis é um fato siderante; os utensílios de re-produção do visível acabam por torná-lo, infortunadamente, invisível" (43). Então, o que temos aqui? Temos exatamente a pista de que o fato de as tecnologias de captação e re-presentação do mundo visível terem se aperfeiçoado significa, ao mesmo tempo, uma espécie de decretação de falência do visível, da imagem. Por quê? Porque o que se vive hoje é um constante substituir-se de imagens e daí que o contato não é mais com as imagens, mas com o processo acelerado de substituição imagética, com a visualização. Para o problema que apresento estas idéias são importantes, já que estou relacionando o mundo da imagem ao da representação. Quer dizer, imagem como permanência, registro que se imprime para ser contemplado. Daí que também a escrita está sujeita às transformações decorrentes do mundo da visualização. A partir da teoria de Debray, posso afirmar que a era o visual cria condições desfavoráveis ao processo de escrita, constituindo-se também nessa espécie de cenário cósmico em que escrever torna-se cada vez mais difícil. A fala de Barbara Giovannini explicita o vínculo visualidade/visibilidade ao processo de desenvolvimento da Comunicação. Talvez a história dos meios de Comunicação do homem possa começar, ainda que impropriamente, com as mais antigas mensagens visíveis que chegaram até nós: as representações pictóricas do Paleolítico (grifo meu) (44). A abordagem da Midiologia apresenta uma interessante interface com a História, o que me ajuda a repensar a história comunicacional da humanidade e perceber o esforço no sentido de imprimir-se, desenvolvido pelo homem através dos tempos - dos inscritos das cavernas, passando pelo pergaminho, tecido, telas de pintura, papel...até chegar à imaterialidade das imagens na tela da televisão e do computador. Assim, o mundo da realidade passou a ser, cada vez mais, representado, reapresentado, para, hoje, ser visualizado. O desenvolvimento de tecnologias de representação da realidade chegou a tal ponto que hoje coloca em xeque a própria noção de representação, na medida em que o que se produz escapa a qualquer conceito. A captação e apresentação do visível é representação, ação de tornar presente de novo - ou manipulação de códigos para criar relações de analogia. O que temos hoje é muito mais que isso. Muito mais do que re-apresent-ação do visível. Temos uma outra realidade produzida, uma realidade que é visualizada, uma realidade virtual. O momento é, particularmente, importante. Sim, porque vem de um processo de acirramento e exacerbação da representação. De apego intenso ao código, ao processo do simbólico. Chegou-se ao ápice deste processo e percebo que já o transpusemos. Agora, nestes tempos de desmanche, o movimento é de retorno ao mundo do sensível. Rompe-se com o simbólico pelo simbólico e abre-se espaço para dimensões indiciais - daí a visualização (45). O momento também tem seus perigos. Acontece que a chegada a um certo nível de capacidade de produção simbólica significou a coroação de um processo de amadurecimento do potencial da Comunicação. Não há possibilidade de compartilhar informações, se não houver troca. Não há troca, se não houver produção a partir de um código - compartilhado, contratado, convencionado previamente. Desta forma, posso pensar e afirmar que estes tempos marcados pela visualização significam um aumento da capacidade de expressão e uma redução da capacidade de comunicação. Isto porque, em decorrência da exacerbação da racionalidade, não há uma tradição de desenvolvimento de técnicas interacionais a partir também de elementos sutis, considerando os universos a-significantes. O apelo ao mundo das sensações característico da era visual coloca em movimento um mar de sentidos, mas não propõe, digamos, uma nova racionalidade, uma racionalidade sensível, que possibilitasse uma comunicação mais sofisticada. Uma comunicação sensível, também em planos de consistência sutis. Uma comunicação composta também de laços de afeto, a partir dessa nova racionalidade. Esta talvez seja uma das contribuições deste meu estudo, na medida em que trato dos processos de escrita - que, em princípio, tendem para a racionalidade, para a materialidade das relações, da comunicação - sob a ótica da sensibilidade, considerando os universos subjetivos dos sujeitos que escrevem. Teoria da Recepção Compreender processos comunicacionais implica em estar atenta a uma vertente de estudos que tem se destacado nos últimos anos como Teoria da Recepção (46). Trata-se, na verdade, de uma ressignificação do lugar do receptor no processo e, mais de isso, de consideração de que o prisma da recepção implica o acontecimento comunicação, enquanto encontro /interação entre sujeitos. Um aspecto interessante destes tempos do visual, para a recepção, é que na medida em que não imperam mais as leis da representação, na medida em que a marca destes tempos é a efemeridade, instantaneidade e aceleração, cada vez mais, quem compõe o mosaico-trama-informacional é o receptor. É ambivalente, mas é assim. Ao mesmo tempo em que a recepção/comunicação fica comprometida - ou, pelo menos, corre o risco de ficar - tem-se uma abertura maior de composição por parte dos envolvidos no processo e, desta forma, também do receptor. Pode-se dizer que tem-se uma ampliação do número de participantes na expressão e, também, uma tendência de participação maior no processo de visualização, como ação de visualizar. Diante do mosaico-trama comunicacional, o potencial de ator para definição das nuances, das cores, dos componentes deste mosaico, aumenta. A Teoria da Recepção, como tem sido trabalhada contemporaneamente, auxilia na compreensão de um dos aspectos de trava do processo de escrita. Se eu entendo que o lugar da recepção é o verdadeiro campo de produção da Comunicação, entendo a minha participação no processo como uma das forças, sujeita a múltiplas outras forças. O meu texto, a minha escrita, é cada vez menos minha. É cada vez mais resultado das negociações possíveis e resultantes com o sujeito que lê o que escrevi. Isto aciona processos complexos do sujeito ligados ao desejo de aceitação, de reconhecimento, de idealização de si. É na recepção que eu encontro o leitor e produzo ou não comunicação, me mostro, me exponho, me proponho como ser que se imprimiu. A virtualização do contato com o receptor constitui-se um dos grandes atravessamentos do processo de escrita. O sujeito que escreve sabe que escreve para alguém que val lê-lo, vê-lo, compreendê-lo ou não, aceitá-lo ou não, rejeitá-lo ou não. Campo da recepção, lugar de encontro com o outro, lugar de entrar em contato, de arriscar-se, de viver o conflito da aproximação de corpos - aqui no sentido de mundos existenciais, não só do corpo matéria. Tudo isso remete a uma outra interface teórica... No Reino da Psicomunicação Este é um estudo interdisciplinar com Psicologia. Tenho trabalhado teoricamente com esta imbricação, Comunicação e Psicologia, porque entendo que compreender processos comunicacionais é compreender processos de interação de sujeitos. Este pressuposto conduz-me às teorias sobre o sujeito. Afinal, quem é o sujeito da comunicação? Ao menos, em que teorias fundamento minha abordagem do sujeito? Quando uso o termo sujeito associado à Psicologia, num primeiro momento pode parecer tratar-se de uma pessoa em particular, seguindo a abordagem da Psicanálise (47). Quero salientar que o sujeito aqui não está sendo pensado como unidade, indivíduo - psicanaliticamente falando -, mas está sendo proposto com base nas concepções da Psicologia contemporânea, particularmente nas de Félix Guattari(48). Há muita confusão entre os conceitos de sujeito e indivíduo, até mesmo devido à trajetória teórica da Psicologia. Durante muito tempo, as concepções da Revolução Científica influenciaram também este campo do conhecimento, fazendo com que fossem buscadas unidades de análise - partes de um todo, a serem estudadas, cujos mecanismos se procurava compreender. A Psicanálise, criada por Sigmund Freud, no final do século passado e início deste século, seguia as características das concepções de Ciência predominantes. Freud esforçou-se sempre para demonstrar o caráter científico da sua descoberta e, claro, obteve sucesso, de forma brilhante, de acordo com o seu tempo. Em Freud, embora haja pistas que apontem para o social, (49) o indivíduo ocupou esse lugar de unidade de análise. Esse mesmo indivíduo teve seu campo psíquico fragmentado em instâncias psíquicas - ao nível da explicação do funcionamento. Considero que as concepções de Freud representam um momento fundamental da busca de compreender o ser humano. O criador da Psicanálise e seus seguidores ou opositores construíram um cenário, com elementos conceituais com que se pode ainda hoje trabalhar. Há, no entanto, que considerar a transformação da paisagem psico-social. Houve, certamente, um processo de complexificação em termos gerais, que precisa ser considerado. Parece-me importante, para falar da construção teórica do sujeito, abordar inicialmente duas grandes dicotomias: sujeito versus indivíduo e sujeito versus objeto.(50) Há ainda: uma terceira, decorrente: subjetividade versus objetividade. Indivíduo, de individuum, tradução latina do grego atomon. Pela etimologia, pode-se depreender a noção do átomo, unidade mínima indivisível - aqui, no caso, da sociedade. De novo, temos a tendência cartesiana de fragmentação do todo. Presente, ainda que implicitamente, outra cisão: indivíduo-sociedade. A fala dos Mattelart ilustra essa trama de indagações, dicotomias: ...é a questão do indivíduo-sujeito face ao coletivo, pela recomposição dos grupos e das classes, pelas lógicas competitivas entre as culturas mediatizadas pela técnica.(51) Atenção para o fato de que, neste ponto, temos o contraponto entre os dois grandes paradigmas deste século - representados por seus fundadores: Freud e Marx. É bom lembrar, no entanto, que bem antes destes dois pensadores, no entanto, a noção de indivíduo já abria o abismo que a obra deles conseguiu aumentar: ...será somente a partir do Renascimento - precisamente com o ressurgimento daqueles destinos do indivíduo que foram sempre ligados ao desenvolvimento da sociedade urbana, razão por que o habitante da cidade é o indivíduo por excelência - que o termo indivíduo irá assumir o preciso significado de homem singular que se diferencia dos interesses e das metas alheias, faz-se substância em si mesmo, instaura como norma sua própria autoconservação e seu próprio desenvolvimento. (52). A discussão atinge até mesmo um nível de fragmentação do homem (ser humano) em várias partes: indivíduo-corpo, sujeito- espírito e pessoa-titular de direitos. Canevacci explicaEssas cisões multiformes tiveram a sua extrema sistematização na era da burguesia, como resultado de um arcaico processo histórico cultural, ao longo do qual o homem singular foi decomposto em várias partes.(53). Esta fragmentação, no entanto, é inconsistente. O ser humano não é um indivíduo-corpo, unidade físico-material, divisível em partes que funcionam mecanicamente, separadas da sociedade. O ser humano é um todo complexo, que pode ser compreendido como campo de forças, resultado de múltiplos feixes de fluxos informacionais se interpenetrando o tempo todo e em constante mutação - o que lhe garante singularidade. Pode-se dizer, então, que esta compreensão põe em xeque tanto as concepções marxistas quanto freudianas, no sentido de romper com a visão determinista e universalizante, característica de paradigmas. Dizendo de uma maneira bem simples: cada sujeito é uma mistura singular de informações, vivências, características em geral, sensações, ainda que, no caso de sujeitos do mesmo grupo, por exemplo, haja a coincidência destas influências. E é esse sujeito, mutante, em constante autoprodução que se considera como tendo qualidades ou praticado ações, que se relaciona a partir dos fluxos comunicacionais, diante de um mundo marcado pelo visual - e não pela imagem. O momento não tem nada a ver com certezas ou com qualquer tipo de segurança. Trata-se, contraditoriamente, de uma espécie de desmanche. O sujeito se desmancha e se refaz a todo momento, assim como a imagem e a escrita e, é lógico, os processos de recepção em comunicação. Desmanchou-se a ordem da Modernidade, para implantar-se a des-ordem de um momento posterior, em que o que se vive são as costuras, um processo em que ao mesmo tempo o que se desmancha é a concepção estruturante de rupturas. Portanto, resgatam-se associações desfeitas. Não há mais a concepção de emissor, de um lado, e receptor, de outro.O que importa é a relação. Há na Psicologia contemporânea a possibilidade de compreender o sujeito em situação, considerado em sua complexidade, em seus múltiplos atravessamentos, com uma subjetividade decorrente de processos de produção. (54) Guattari fala de uma subjetividade maquínica, produzida através de dispositivos múltiplos de subjetivação, dispositivos maquínicos agenciados em um contexto de ordem capitalística. Neste contexto, os meios de comunicação agem como equipamentos coletivos de produção de subjetividades, que interagem com muitos outros dispositivos, compondo universos de referência significantes e a-significantes. A esquizoanálise, conjunto de pressupostos teóricos concebidos por Félix Guattari e Gilles Deleuze, questiona os complexos freudianos e o caráter universalizante das concepções da Psicanálise - tanto a partir de Freud quanto de alguns de seus sucessores, como o próprio Lacan. Acredito que tanto Guattari quanto Deleuze produziram elaborações que não negam totalmente a Psicanálise, mas questionam duramente a rigidez totalitária do estruturalismo desta teoria. Na verdade, colocam em xeque o caráter mecânico-reducionista-cartesiano da Psicanálise. Teorizam a complexidade das relações e o universo de produção da subjetividade, bem como a mediação - para eles, "atravessamento" - dos equipamentos coletivos de produção, como as tecnologias da comunicação - para eles, os "dispositivos maquínicos". A heterogênese caosmótica da contemporaneidade abordada por Félix Guattari apresenta-nos a este caráter esquizo da subjetividade contemporânea, ou seja, uma subjetividade fragmentada, tensionada, subjetividade barata tonta. Psicotecnologia A compreensão de Guattari sobre os "equipamentos coletivos" e os "maquinismos" possibilita vislumbrar a área das tecnologias da comunicação como outra interface teórica necessária. Derrick de Kerckhove criou o termo psicotecnologia "...para definir qualquer tecnologia que emula, estende ou amplifica o poder das nossas mentes". Esta interface comunicação-psicologia-tecnologia é um dos nós teóricos do meu trabalho. Não se trata de uma visão maniqueísta da tecnologia. Não há também nem deslumbramento nem aversão à tecnologia. Há, no entanto, a compreensão de que a tecnologia é um dos fortes "atravessamentos". Em sua teoria, Guattari fala de maquinismos, referindo-se a processos de engendramentos a partir do acionamento de potências. Esse mundo dos maquinismos envolve tudo o que é agenciado, daí não se tratar apenas das máquinas materiais. De sua parte, Kerckhove também propõe a tecnologia como algo complexo relacionado diretamente a nossa realidade psíquica. "Estamos para sempre a ser feitos e refeitos pelas nossas invenções (...) A nossa realidade psicológica não é coisa natural. Depende parcialmente da forma como o nosso ambiente, incluindo as próprias extensões tecnológicas, nos afecta." (55). Podemos afirmar que o sujeito só existe em relação ao Outro, com base no referencial da Psicologia. É possível afirmar ainda que este Outro não é só humano. Este Outro é complexo também, composto de muitas matérias e substâncias. Dizendo de outro modo, tudo o que constitui ambiência corrobora para a constituição do sujeito, inclusive objetos, máquinas e, claro, as tecnologias da comunicação. "...estas tecnologias não apenas prolongam as propriedades de envio e recepção da consciência como penetram e modificam a consciência dos seus utilizadores." (56). A preocupação com os processos de escrita parte de percepções múltiplas, como venho assinalando. Parte também do interesse de entender o ser humano e sua relação com a trama comunicacional. Do ponto de vista teórico, este interesse e preocupação não são recentes. Harold Innis publicou em 1951 um livro que tratava do assunto. Havelock faz referência a este texto, lembrando que Innis chegou à conclusão que os meios de comunicação de massa atuais não deixam ao homem tempo para pensar. "Notícias instantâneas roubam-lhe o sentido histórico, impedem-no de olhar para o passado e tiram-lhe a capacidade de ver o futuro, de enxergar as prováveis conseqüências das decisões do presente". (57). Diretamente relacionadas ao problema da minha tese estão as considerações da teórica alemã Hertha Sturm, citadas por Kerckhove. Ela afirma que a televisão nos nega o tempo necessário para integrar a informação a um nível de consciência completo. Parece ser esta uma das tecnologias da comunicação que contribuem para o distanciamento da verbalização e, em decorrência, da escrita. A televisão tem intrínseca uma certa lógica de funcionamento e de linguagem que tem marcado os processos de expressão do sujeito, de um modo geral e, particularmente, os processos de escrita. Apresentações em mudança rápida bloqueiam a verbalização. Entre estas contam-se as mudanças não interceptadas do ponto de vista, saltos inesperados de imagem para texto ou de texto para imagem. Quando confrontado com apresentações em mudanças rápidas e acção acelerada, o espectador é literalmente levado de imagem para imagem. Isto exige uma adaptação inesperada mas constante aos estímulos perceptivos. Como resultado, o espectador deixa de conseguir manter o ritmo e desiste de fazer classificações mentais. Descobrimos que, quando isto ocorre, o indivíduo age e reage de forma crescentemente fisiológica, o que, por sua vez, conduz a uma redução da compreensão. O espectador torna-se, por assim dizer, vítima de uma força externa, da rapidez da montagem audiovisual". (58). Hertha Sturm explica que a mente demora pelo menos meio segundo para produzir uma resposta correta a um estímulo complexo. Daí criou a expressão "síndrome do meio segundo que falta" para representar as conseqüências da relação do sujeito com a linguagem da TV. Na mesma direção, está o conceito de "sacudidelas por minuto" ou "SPM", de Morris Wolfe. "A TV tem que fazer zap ao zapador antes que ele ou ela faça zap ao canal(...) SPM que mantêm a atenção bem presa podem também impedir respostas cognitivas completas". (59) Kerckhove questiona os críticos raivosos da televisão, dizendo que é fácil atirar as culpas para cima dela. Aponta que só uma mão cheia de críticos Jerry Mander, George Gerbner, Joshua Meyrowitz, Neil Postman e, claro, McLuhan - começaram a perceber a mensagem do meio TV. "A TV está a desafiar a nossa outrora dominante e literária forma de pensar, substituindo-a pela oralidade, táctil e colectiva. Ameaça a sacrossanta autonomia que adquirimos através da leitura e da escrita".(60). As teorias sobre televisão que se relacionam com este trabalho são - do mesmo modo que no caso das teorias acerca do computador - as que ajudam a compreendê-la como dispositivo que interfere no modo de ser-pensar-comunicar-relacionar-se do ser humano. Também citado por Kerckhove, Herbert Krugman afirma que a televisão ensina as crianças pequenas a aprender a aprender de uma maneira muito particular. "... a criança aprende a aprender por olhadelas rápidas. Mais tarde, se a criança está numa sociedade onde a leitura é necessária, confronta o novo meio de aprender a aprender com o hábito adquirido por via da televisão. Tenta compreender a palavra impressa através de olhadelas rápidas. Não funciona. Aprender a ler é um processo difícil, duro e - o que pode ser uma surpresa - algo que é em muitos casos intolerável." (61). Tecnociência A interface com a tecnologia está sendo pensada também através da consideração dos textos de Pierre Lévy. A proposta do hipertexto como metáfora do contemporâneo, apresentada por Lèvy, está no centro da minha tese. Em cada uma das trilhas, tenho uma dimensão diacrônica que aponta para a linearidade, enquanto a dimensão sincrônica indica a hipertextualidade. As considerações de Levy sobre a comunicação, sobre a necessidade de compreensão dessa metáfora, ajudam-me a explicitar o que penso: "...o efeito de uma mensagem é o de modificar, complexificar, retificar um hipertexto, criar novas associações em uma rede contextual que se encontra sempre anteriormente dada. O esquema elementar da comunicação não seria mais A transmite alguma coisa a B, mas sim A modifica uma configuração que é comum a A,B,C,D, etc. O objeto principal de uma teoria hermenêutica da comunicação não será, portanto, nem a mensagem, nem o emissor, nem o receptor, mas sim o hipertexto que é como a reserva ecológica, o sistema sempre móvel das relações de sentidos que os precedentes mantém. E os principais operadores desta teoria não serão nem a codificação nem a decodificação nem a luta contra o ruído através da redundância, mas sim estas operações moleculares de associação e desassociação que realizam a metamorfose perpétua do sentido."(62). O termo hipertexto foi criado no início dos anos 60, por Theodore Nelson, para representar a idéia de escrita/leitura não linear, em um sistema de informática. Ele imaginou uma rede, chamada Xanadu, que "...seria uma espécie de materialização do diálogo incessante e múltiplo que a humanidade mantém consigo mesma e com seu passado". (63). O hipertexto é uma trama, um conjunto de nós interligados. Cada nó pode ser palavra, página, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos. "Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa portanto desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira" (64). Processos de Escrita O grande desafio teórico deste trabalho encontra-se resumido na expressão processos de escrita. Já apresentei a idéia de que a escrita representa o amadurecimento da capacidade de Comunicação do ser humano e, neste sentido, mergulhar nos estudos sobre a escrita é algo como mexer num vespeiro, que desperta vespas da vizinhança - como as das teorias da Linguagem e do Discurso. Claro que cada uma destas perspectivas encerra um universo teórico de enorme amplitude. Não há a pretensão de dar conta de todo esse universo teórico: apenas manifesto aqui a compreensão de que se tratam de zonas vizinhas. Não há como ignorá-las. Destaco, inicialmente, as elaborações teóricas de Havelock . Este autor estudou profundamente as condições de transição entre a oralidade e a escrita na história da humanidade.(65) Destaca a prioridade histórica da oralidade sobre a escrita na experiência humana, a prioridade da função armazenadora da língua oral com relação a seu emprego casual, prioridade da experiência poética sobre a prosaica na nossa constituição psicológica, prioridade da memória e do ato de memorização sobre a invenção do que chamamos de criatividade; prioridade do ato sobre o conceito, da percepção concreta sobre a definição abstrata; prioridade do alfabeto grego sobre todos os tipos anteriores de escrita, fornecendo um instrumento único da cultura escrita. Havelock apresentou um levantamento de obras e teorias publicadas, discutindo a relação entre oralidade e cultura escrita. Destacou como pioneiro o trabalho de Milman Parry, uma tese de doutorado de 1928, O Epíteto Tradicional em Homero. Posteriormente, a obra de Parry foi divulgada graças ao trabalho de Albert Lord (nos anos de 1946-47), que começou a tornar público o material gravado nos Bálcãs. Havelock conta que o livro de Innis, publicado em 1951, indica uma preferência deste autor para a palavra oral sobre a escrita. Em 1952, I. J. Gelb publicou Um Estudo da Escrita. Fundamentos da Gramatologia. Depois, 1958, Walter Ong, torna público seu trabalho Ramus: Método e Decadência do Diálogo e, em 1960, o próprio Albert Lord apresenta O Cantor de Histórias, comparação entre Homero e os modos de composição oral que ainda sobrevivem. O estudo de Gelb, citado, meio que antecipava elementos, que seriam apresentados, em 1976, por J. Derrida em Sobre a Gramatologia. Dos textos citados por Havelock, destaco agora as considerações acerca do de Walter Ong. Conta Havelock que Ong detectou drásticas limitações impostas à vitalidade, à própria linguagem da retórica, quando suas regras passaram a ser textualizadas, formalizadas e fossilizadas em um sistema escrito - no que se pode chamar discurso escrito culto.(66). Este aspecto me parece importante à medida em que percebo que a rigidez exacerbada da escrita, de suas regras, acabou deteriorando não só a própria escrita, mas a relação com as palavras - ou seja, também na oralidade. Mais do que isso, a repulsa passou a ser em relação às regras implícitas que, diga-se de passagem, têm reflexos nas relações em geral dos sujeitos, já que estes se constituem sempre apenas em relação ao Outro. Ainda na cronologia trabalhada por Havelock, o registro de uma ruptura, com o surgimento de textos que apontam a importância da oralidade: em 1962, A Galáxia de Gutenberg, de McLuhan; no mesmo ano, O Pensamento Selvagem, de Lévi-Strauss; em 1963, o artigo "As Conseqüências da Cultura Escrita", de Jack Goody e Ian Watt; e, do próprio Havelock, Prefácio para Platão. Neste contexto, quero destacar as considerações sobre a obra de McLuhan, porque me parecem importantes para a temática da tese: "McLuhan fez uma avaliação negativa da imprensa, vendo-a como criadora do pensamento tipográfico ou linear, em oposição aos níveis de consciência e da comunicação mais ricos, complexos e multifacetados que ele viu surgir a partir da mídia eletrônica" (67). Temos aqui presente a questão da trama comunicacional e da necessidade/desafio de compreender os processos complexos advindos desta trama. Havelock propõe que o importante é não voltar à oralidade, mas "...explorar em profundidade as novas possibilidades da cultura escrita, uma cultura de leitores da comunicação por meio da imprensa, ao invés de por meio da voz." (68). Isto também me ajuda a pensar nos objetivos da minha tese. Não se trata aqui de julgar dispositivos comunicacionais, mas de explorá-los em profundidade. Particularmente, trata-se de apostar em agentes potencializadores da Comunicação e das relações entre os sujeitos, daí meu interesse pela escrita. As remissões de Havelock à hermenêutica também são ilustradoras. Destaca, neste sentido, Heidegger e sua busca de significados ocultos, mais profundos, como uma quase sugestão de que existem realidades que podem ser mais bem expressas pela linguagem oral que pela escrita. E ainda, Wittgenstein, com a mudança de perspectiva a respeito da linguagem, deixando de vê-la como instrumento de claridade lógica e passando a considerá-la como "mentora da comunicação humana comum e do conhecimento humano (...)- uma linguagem formada à medida que responde às convenções observadas em qualquer grupo lingüístico". Havelock foi um dos principais pensadores acerca da relação da humanidade com a escrita. Há aspectos ainda que podem ser destacados, como é o caso da discussão sobre revolução conceitual proporcionada pelo surgimento do alfabeto grego. A cultura européia caminhou de uma poética narrativa de sintaxe ativa e agentes vivos de todo discurso oral preservado pela memória para o âmbito da prosa discursiva analítica, reflexiva, interpretativa e conceitual.(70). A bibliografia sobre aspectos da escrita é vasta. Na constituição do quadro teórico fui buscando eleger algumas interfaces como norteadoras das buscas e, principalmente, das possibilidades de processamento. Uma delas é a interface com a história da escrita. Muito do que penso hoje decorre do que pude perceber no processo histórico da escrita, já mencionado na formulação do problema. O estudo de Barbara Giovannini (71) não se trata de uma teoria sobre a escrita, propriamente dita. O texto estudado dá conta do processo de desenvolvimento da escrita na história da humanidade, ressaltando aspectos como localização, características, materiais suporte, relações com o poder. Como visão panorâmica, é essencial, além de sinalizar questões de fundo, como a relação escrita-poder, escrita vesus suportes de registro de informações e escrita-saber. Escrita e processamento mental Uma das trilhas teóricas mais profícuas com relação à escrita tem sido a que relaciona o alfabeto a transformações da mente humana. Kerckhove levanta a seguinte hipótese: o alfabeto teria tido papel determinante para acentuar tempo e seqüência, as duas funções essenciais do hemisfério esquerdo do cérebro - isto conduziu à dependência ocidental da racionalidade e da racionalização de toda experiência, incluindo a percepção do espaço (72). Considerando a linguagem como o "mais completo sistema de processamento de informação", Kerckhove discute o surgimento e a importância da escrita, neste sentido. Relaciona a escrita com grandes transformações da humanidade. E ressalta: "Qualquer tecnologia que afecte significativamente a linguagem afecta também o comportamento física, emocional e mentalmente". (73) Quer dizer, defende a escrita como responsável por mudanças radicalmente importantes para a humanidade, principalmente a escrita alfabética. As propriedades seqüenciais do alfabeto condicionaram a mente ocidental a dividir a informação em pequenos pedaços e a voltar a juntá-los numa ordem da esquerda para a direita. O alfabeto tornou-se então a base de inspiração e o modelo para os mais poderosos códigos da humanidade(74). Lingüística Nas vinhanças teóricas de escrita, como já disse, estão grandes vertentes como Lingüística. Resultante de um esforço de estudar a gramática , buscando elaborar a Teoria Geral da Linguagem, esta área tem no trabalho de Ferdinand de Saussure (75) seu grande marco. A afirmação clássica da "língua como um sistema de signos" sintetiza uma perspectiva de análise da relação linguagem-sociedade, de abordagem do percurso psíquico da linguagem. Saussure distinguia as duas linhas de pesquisa: sincrônica, estudo das constituição da língua, dos sons, das regras gramaticais; e diacrônica, pesquisa das transformações da língua no decorrer do tempo. Interessante a idéia de Saussure de que ao se alterar a linguagem, altera-se também o conceito de mundo. Fico pensando que se a escrita é a linguagem impressa, as alterações da linguagem implicam também em alterações do mundo que se imprime, de uma espécie de materialização do mundo. Semiologia e Semiótica Pierre Lévy afirma que "A escrita em geral, os diversos sistemas de notação inventados pelo homem ao longo dos séculos têm por função semiotizar, reduzir a uns poucos símbolos ou a alguns traços os grandes novelos confusos de linguagem, sensação e memória que formam o nosso real." A produção de signos, de símbolos, no processo de apreensão e representação de si e do mundo aproxima-se da tese que apresento. A teoria dos signos é um vasto campo teórico. A área de estudos teve, inclusive, nomes diversos, oscilando entre semiologia, de Ferdinand Sausurre, numa tradição do estruturalismo europeu, e a perspectiva semiótica de Charles Sanders Peirce.(76) , de influência do funcionalismo norte-americano, inicialmente, passando para uma perspectiva de complexidade, posteriormente. Cada uma destas vertentes teóricas constitui um emaranhado de conceitos, alguns dos quais são muito importantes para este trabalho e, por isso, serão trabalhados oportunamente. Como a perspectiva teórica deste trabalho é a de costura, a de parcerias e não de filiação, não pretendo me aprofundar no detalhamento de cada uma destas perspectivas. Aqui também, parece-me que o desafio é sair de uma visão estruturalista ao extremo, ou seja, radicalmente atrelada aos dogmas mecanicista-reducionista-cartesiano, para tomar a direção de uma teoria sistêmica, mais adequada ao contexto contemporâneo da pós-modernidade, de perspectiva da complexidade. A fundamentação semiótica deste trabalho, no entanto, apóia-se em Umberto Eco. A abordagem de Eco é interessante, na medida em que este autor discute os processos de significação, aproximando-se da filosofia. E esta aproximação é que auxiliar a pensar o ser e os processos. A filosofia da linguagem, dos estóicos a Cassirer, dos medievais a Vico, de Santo Agostinho a Wittgenstein, abordou todos os sistemas de signos e, neste sentido, colocou uma questão radicalmente semiótica (77). Notas (*) Mestre e Doutoranda pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de Sâo Paulo (ECA/USP), Professora do Curso de Comunicação Social da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)
Este texto se presentó en el congreso ICOM'98, celebrado en diciembre de 1998 en la Universidad de La Habana (Cuba), convocado por su Facultad de Comunicación |
|